“Não podemos nem mesmo entrar por alguns minutos, só pra conhecer?”.Chovia fraco na noite de quarta-feira quando o rapaz de paletó e gravata pretos fez a pergunta para uma garçonete de menos de 20 anos, no corredor escuro, por cima de um portão enferrujado.
Minutos antes o motorista do Vectra, também preto, subiu a Brigadeiro Luís Antônio e entrou, devagar, na José Maria Lisboa. A ordem era levar a senhora alegre e falante do banco traseiro ao número 190, na segunda quadra.
Inseguro sobre estar ou não no lugar certo, em trecho escuro da rua, atrás de uma árvore, viu apenas uma fraca luz amarela e o portão enferrujado, com menos de 2 metros de largura. Um casal tentava descobrir como abrir o portão trancado.
O motorista manteve o carro ligado enquanto outro desceu pra checar a situação. Antes de chegar ao portão percebeu que a senhora, idosa e gorda, também descera do carro, dispensando o cuidado do guarda-chuva, e caminhava lentamente, mas firme. Ali, na calçada, podiam ouvir a música que vinha da casa, enquanto olhavam curiosos para o interior do lugar, escuro.
Veio uma moça, sorridente, de avental branco, pelo corredor estreito. Está lotado, já começou o show. Nenhuma mesa disponível? Nem por alguns minutos? Não. Já temos dois casais em pé, aguardando. Impossível, não cabe mesmo, a casa é pequena. Sólo puedo oír? A moça sorridente mudou o sorriso, agora para um tipo encantado por perceber que aquela senhora era estrangeira, falando um espanhol carregado. Não, não dá mesmo, podem voltar um pouco mais tarde, talvez depois do intervalo libera alguma mesa...
O primeiro casal já tinha partido ao perceber que a casa estava realmente lotada, provavelmente para jantar hambúrgueres no St. Louis, a duas quadras dali. A senhora estrangeira e idosa ficou ainda alguns minutos ali, em pé na calçada, até voltar para o interior do carro e partir. Não voltou.
A casa era a “Casa de Francisca”, Rua José Maria Lisboa, 190. Era quarta-feira, 10 de setembro de 2008. Criada por 3 amigos, sendo dois irmãos, a Casa levou anos para ficar pronta. Alugada a princípio por R$ 1.500 (valor devidamente inflado depois) entre 2006 a 2007 deixou de ser uma serralheria suja e abandonada para se tornar, dois anos depois, no melhor lugar da noite de São Paulo.
A casa, acredite, esta lá desde 1913. Foi uma das primeiras da rua. Acredite, de novo: em 1913 a Paulista já era a vitrine da nova burguesia cafeeira, mas poucos se interessavam por 5 quadras abaixo. Francisca, a espanhola, foi a primeira moradora da casa. Há poucos registros da época e da família. Sobrou a foto em uma moldura, devidamente pendurada em lugar nobre da parede. O pouco que se sabe é que a casa foi de Francisca, e então voltou a ser.
A inauguração levou meses – e só aconteceu pra valer em janeiro de 2008, com os primeiros shows improvisados de Isabel de Barros aos sábados, ou de música cubana ao piano às terças. Tocava-se um pouco, esperava-se a reação das pessoas, bebia-se, conversava-se, e voltava-se ao palco. Ainda não lotava. Na verdade, não vinha ninguém. Aos poucos, quem passava na rua ficava curioso pela música e iluminação daquele lugar. Tudo parecia sempre aberto, era só chegar e entrar, como se estivesse visitando um amigo de infância, ou como se estivesse na SUA casa. Veio um, veio outro. Fez-se amizade com os mecânicos da rua (os quais, meses depois, foram homenageados no folder de programação do mês da Casa), com o dono da padaria da esquina e com muita gente que passava – e voltava. A geladeira dos anos 50, reformada e em funcionamento, carregada de garrafas de Eisenbahn, parecia também sempre aberta para os amigos – os antigos e os novos. Acontece que os novos foram trazendo novos, e estes novos traziam novos. Até que, em um sábado, com show (sempre) improvisado de samba, a casa lotou. Lotou. E ninguém acreditou.
Mal se sabia o que cobrar, como cobrar. Era uma casa ainda, não era uma balada. Perguntas do tipo “aceita Visa?” ainda eram vistas com estranhamento. Quem, por diabos, tem uma maquineta de Visanet EM CASA? Aquilo era um casa, mas por pouco tempo. Logo, seria a Casa.
No sábado seguinte, lotou. E na sexta também. Sábados depois, lotou. Lotava aos fins de semana, ficava às moscas até quinta-feira.
Uma coisa apenas foi sempre sagrada: a Casa fecha às segundas-feiras e isso nunca foi negociável.
Em uma quarta-feira de música latina, casa completamente vazia, entrou um cara sozinho. Sentou em uma mesa no canto e olhou. Pediu risoto, uma taça de vinho, e olhou. O show começou, com empenho, para um único espectador. Na época, ainda não havia sequer garçonetes, apenas uma moça na cozinha. O resto, do serviço de mesa à cobrança sem Visa, era feito pelos donos – e pelos amigos. Terminado o show, o único cliente puxou papo com um dos donos. Acabaram sentados juntos, bebendo cerveja. Não era muito, era apenas o diretor de redação da Playboy. Impressionado com a Casa, perguntou se não poderia vir fotografar e fazer uma matéria, na coluna especial sobre a noite da cidade.
Acredite ou não, a dúvida sobre deixar ou não existiu por mais de uma semana. O que aconteceria com a Casa depois de divulgada em revista? Teria filas na porta? Teria barulho que incomodaria a vizinhança e provocaria o despejo, depois de tanto dinheiro gasto em decoração? Traria bêbabos, turmas de estagiários em happy-hour, grupos pedindo Skol e porções de batata frita? Foram feitas as fotos, foi escrita e publicada a matéria. Depois disso, veio a Veja. Óbvio, veio também a Época. E a Casa passou a lotar também em noites da semana.
Passou a lotar tanto, e tão despretensiosamente, que em uma noite de chuva de setembro de 2008, não teve lugar para receber Mercedes Sosa.
“La Negra”, como era chamada popularmente, é um dos maiores nomes da música argentina, junto com Carlos Gardel e Astor Piazzolla, lançou 36 álbuns em mais de 40 anos de carreira e sempre teve uma ligação forte com o Brasil: gravou com Caetano, Mílton Nascimento, Chico Buarque, Beth Carvalho, Gal Costa e qualquer outro nome que vc conseguir lembrar. Perseguida pelo regime militar, exilou-se em Paris e Madri, onde morou com Fagner, e só retorna para a Argentina em 1982, já com novas canções de sucesso em um país esvaziado politicamente.
Naquela noite, depois de jantar no Antiquarius, também nos Jardins, pediu para seu motorista lhe levar para conhecer a Casa, antes de voltar ao seu quarto do Renaissance. Na sexta-feira faria um show no HSBC Brasil, na Marginal. Não se sabe ao certo o que a fez tentar conhecer o lugar sem reserva, mas o certo é que a indicação partiu de Coqui Sosa, seu sobrinho e também compositor e músico. Talvez a intenção tenha sido fazer uma surpresa para seu antigo conhecido Arrigo Barnabé, conhecido habitué da Casa.
O certo é que a história só foi revelada meses depois, pelo próprio Coqui Sosa; e confirmada por algumas pessoas que falaram sobre “uma mulher estrangeira que parecia muito rica pediu pra entrar, mas estava lotado e ela foi embora”.
Lembrei dessa história ontem, quando soube que Mercedes Sosa morreu, em Buenos Aires, sem conhecer a “Casa de Francisca”.
Hoje, segunda-feira, a “Casa de Francisca” abriu.

















Não cansa tanto quanto parece.



