Segunda-feira, Outubro 05, 2009

“Não podemos nem mesmo entrar por alguns minutos, só pra conhecer?”.

Chovia fraco na noite de quarta-feira quando o rapaz de paletó e gravata pretos fez a pergunta para uma garçonete de menos de 20 anos, no corredor escuro, por cima de um portão enferrujado.

Minutos antes o motorista do Vectra, também preto, subiu a Brigadeiro Luís Antônio e entrou, devagar, na José Maria Lisboa. A ordem era levar a senhora alegre e falante do banco traseiro ao número 190, na segunda quadra.

Inseguro sobre estar ou não no lugar certo, em trecho escuro da rua, atrás de uma árvore, viu apenas uma fraca luz amarela e o portão enferrujado, com menos de 2 metros de largura. Um casal tentava descobrir como abrir o portão trancado.

O motorista manteve o carro ligado enquanto outro desceu pra checar a situação. Antes de chegar ao portão percebeu que a senhora, idosa e gorda, também descera do carro, dispensando o cuidado do guarda-chuva, e caminhava lentamente, mas firme. Ali, na calçada, podiam ouvir a música que vinha da casa, enquanto olhavam curiosos para o interior do lugar, escuro.

Veio uma moça, sorridente, de avental branco, pelo corredor estreito. Está lotado, já começou o show. Nenhuma mesa disponível? Nem por alguns minutos? Não. Já temos dois casais em pé, aguardando. Impossível, não cabe mesmo, a casa é pequena. Sólo puedo oír? A moça sorridente mudou o sorriso, agora para um tipo encantado por perceber que aquela senhora era estrangeira, falando um espanhol carregado. Não, não dá mesmo, podem voltar um pouco mais tarde, talvez depois do intervalo libera alguma mesa...

O primeiro casal já tinha partido ao perceber que a casa estava realmente lotada, provavelmente para jantar hambúrgueres no St. Louis, a duas quadras dali. A senhora estrangeira e idosa ficou ainda alguns minutos ali, em pé na calçada, até voltar para o interior do carro e partir. Não voltou.

A casa era a “Casa de Francisca”, Rua José Maria Lisboa, 190. Era quarta-feira, 10 de setembro de 2008. Criada por 3 amigos, sendo dois irmãos, a Casa levou anos para ficar pronta. Alugada a princípio por R$ 1.500 (valor devidamente inflado depois) entre 2006 a 2007 deixou de ser uma serralheria suja e abandonada para se tornar, dois anos depois, no melhor lugar da noite de São Paulo.

A casa, acredite, esta lá desde 1913. Foi uma das primeiras da rua. Acredite, de novo: em 1913 a Paulista já era a vitrine da nova burguesia cafeeira, mas poucos se interessavam por 5 quadras abaixo. Francisca, a espanhola, foi a primeira moradora da casa. Há poucos registros da época e da família. Sobrou a foto em uma moldura, devidamente pendurada em lugar nobre da parede. O pouco que se sabe é que a casa foi de Francisca, e então voltou a ser.

A inauguração levou meses – e só aconteceu pra valer em janeiro de 2008, com os primeiros shows improvisados de Isabel de Barros aos sábados, ou de música cubana ao piano às terças. Tocava-se um pouco, esperava-se a reação das pessoas, bebia-se, conversava-se, e voltava-se ao palco. Ainda não lotava. Na verdade, não vinha ninguém. Aos poucos, quem passava na rua ficava curioso pela música e iluminação daquele lugar. Tudo parecia sempre aberto, era só chegar e entrar, como se estivesse visitando um amigo de infância, ou como se estivesse na SUA casa. Veio um, veio outro. Fez-se amizade com os mecânicos da rua (os quais, meses depois, foram homenageados no folder de programação do mês da Casa), com o dono da padaria da esquina e com muita gente que passava – e voltava. A geladeira dos anos 50, reformada e em funcionamento, carregada de garrafas de Eisenbahn, parecia também sempre aberta para os amigos – os antigos e os novos. Acontece que os novos foram trazendo novos, e estes novos traziam novos. Até que, em um sábado, com show (sempre) improvisado de samba, a casa lotou. Lotou. E ninguém acreditou.

Mal se sabia o que cobrar, como cobrar. Era uma casa ainda, não era uma balada. Perguntas do tipo “aceita Visa?” ainda eram vistas com estranhamento. Quem, por diabos, tem uma maquineta de Visanet EM CASA? Aquilo era um casa, mas por pouco tempo. Logo, seria a Casa.

No sábado seguinte, lotou. E na sexta também. Sábados depois, lotou. Lotava aos fins de semana, ficava às moscas até quinta-feira.

Uma coisa apenas foi sempre sagrada: a Casa fecha às segundas-feiras e isso nunca foi negociável.

Em uma quarta-feira de música latina, casa completamente vazia, entrou um cara sozinho. Sentou em uma mesa no canto e olhou. Pediu risoto, uma taça de vinho, e olhou. O show começou, com empenho, para um único espectador. Na época, ainda não havia sequer garçonetes, apenas uma moça na cozinha. O resto, do serviço de mesa à cobrança sem Visa, era feito pelos donos – e pelos amigos. Terminado o show, o único cliente puxou papo com um dos donos. Acabaram sentados juntos, bebendo cerveja. Não era muito, era apenas o diretor de redação da Playboy. Impressionado com a Casa, perguntou se não poderia vir fotografar e fazer uma matéria, na coluna especial sobre a noite da cidade.

Acredite ou não, a dúvida sobre deixar ou não existiu por mais de uma semana. O que aconteceria com a Casa depois de divulgada em revista? Teria filas na porta? Teria barulho que incomodaria a vizinhança e provocaria o despejo, depois de tanto dinheiro gasto em decoração? Traria bêbabos, turmas de estagiários em happy-hour, grupos pedindo Skol e porções de batata frita? Foram feitas as fotos, foi escrita e publicada a matéria. Depois disso, veio a Veja. Óbvio, veio também a Época. E a Casa passou a lotar também em noites da semana.

Passou a lotar tanto, e tão despretensiosamente, que em uma noite de chuva de setembro de 2008, não teve lugar para receber Mercedes Sosa.

La Negra”, como era chamada popularmente, é um dos maiores nomes da música argentina, junto com Carlos Gardel e Astor Piazzolla, lançou 36 álbuns em mais de 40 anos de carreira e sempre teve uma ligação forte com o Brasil: gravou com Caetano, Mílton Nascimento, Chico Buarque, Beth Carvalho, Gal Costa e qualquer outro nome que vc conseguir lembrar. Perseguida pelo regime militar, exilou-se em Paris e Madri, onde morou com Fagner, e só retorna para a Argentina em 1982, já com novas canções de sucesso em um país esvaziado politicamente.

Naquela noite, depois de jantar no Antiquarius, também nos Jardins, pediu para seu motorista lhe levar para conhecer a Casa, antes de voltar ao seu quarto do Renaissance. Na sexta-feira faria um show no HSBC Brasil, na Marginal. Não se sabe ao certo o que a fez tentar conhecer o lugar sem reserva, mas o certo é que a indicação partiu de Coqui Sosa, seu sobrinho e também compositor e músico. Talvez a intenção tenha sido fazer uma surpresa para seu antigo conhecido Arrigo Barnabé, conhecido habitué da Casa.

O certo é que a história só foi revelada meses depois, pelo próprio Coqui Sosa; e confirmada por algumas pessoas que falaram sobre “uma mulher estrangeira que parecia muito rica pediu pra entrar, mas estava lotado e ela foi embora”.

Lembrei dessa história ontem, quando soube que Mercedes Sosa morreu, em Buenos Aires, sem conhecer a “Casa de Francisca”.

Hoje, segunda-feira, a “Casa de Francisca” abriu.

Quarta-feira, Setembro 30, 2009

Por apenas US$ 5.000,00.

Quarta-feira, Agosto 26, 2009


De novo. Deve ser minha foto preferida.
Está lá, mas ninguém percebe.

Quarta-feira, Dezembro 24, 2008

“No Rio a vida pode ser boa para todos. A idéia de aqui ser rico, de viver em uma dessas casas maravilhosas cercadas de parques e situadas no outeiro da Tijuca é muito sedutora. É mais fácil ser pobre aqui do que noutra grande cidade. O mar é livre para o banho e há beleza para todos os olhos: as pequenas necessidades da vida custam pouco dinheiro; as pessoas são afáveis e é infinda a multiplicidade das pequenas surpresas diárias que fazem feliz uma pessoa, sem que ela saiba o porquê disso. Há na atmosfera algo brando e repousante que faz com que o indivíduo se torne menos combativo, talvez também menos enérgico. Esta paisagem, com tudo o que é belo e sem parar na terra, dá ao indivíduo um misterioso consolo. De noite, com os milhões de estrelas e luzes, de dia com as cores claras e vivíssimas, ardentes e explosivas, no crepúsculo com a sua leve neblina e jogos de nuvens, em seu calor flagrante e em seus aguaceiros tropicais, esta cidade é sempre encantadora. Quanto mais a conhecemos, tanto mais gostamos dela. Mas quanto mais a conhecemos, tanto menos podemos descrevê-la”. Brasil, País do Futuro. Stefen Zweig.
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“Do Rio Comprido à Lagoa e irá por baixo da terra pelo maior túnel urbano do mundo. O Rebouças, em duas etapas, vai diminuir de uma hora o antigo percurso, que obrigava passar pelo centro da cidade. Cortará o maciço Carioca em dois trechos, do Cosme Velho à Lagoa, com 2.040 metros, e do Rio Comprido ao Cosme Velho, com 680 metros. As obras foram inicias em 62, serão entregue no decorrer deste ano e ao conjunto se deu o nome de dois irmãos, pretos e engenheiros, que serviram o Império, um André, projetou o porto, outro Antônio, construiu as docas da Alfândega e fez reforços de adução. No Rebouças, duas galerias paralelas, de 9 metros de largura cada, darão vazão ao tráfego de mais de 3 mil veículos por dia. Dois viadutos facilitarão acesso e escoamento, e lá dentro haverá ventiladores, exaustores e uma chaminé de 152 metros, para dar 700 metros cúbicos de ar renovado por segundo”. Quatro Rodas, 1965.

"Favela é uma cidade de um milhão de habitantes e 179 bairros onde a idade média para morrer é de 45 anos. Há quatro anos, os bairros eram 187. Hoje são 8 a menos, estão de mudança e 50 receberam melhoramentos".
Quatro Rodas, 1965.
Sensacional a imprensa em 1965, não?!
E na mesma noite, faminto, pedalei toda a orla do Leblon, toda Ipanema, Arpoador e de uma ponta à outra de Copacabana, só pra experimentar o Cervantes. O melhor pé-sujo do Rio, dizem.
Dois amigos meus, entendidos de Rio, me disseram a mesma coisa: vá comer no Bracarense, no Leblon. Eu fui, e tentei. Bem que comeria, se eu coubesse lá.
"Desde 1882 o Rio também tem a menor estrada de ferro do país. 4 quilômetros do Cosme Velho ao Corcovado. Em compensação é a primeira eletrificada. Transporta por dia 1000 passageiros, mais ou menos, e um dia, entre os 1000, levou um candidato ao suicídio, o único que tentou a morte lá de cima: não deu certo, uma plataforma aparou o salto e o homem, depois da queda, achou história para contar aos amigos". Quatro Rodas, 1965.
“Muita gente marca encontro na Candelária, que tem cadeiras confortáveis. No centro pelo menos 20 leiterias defendem o prestígios das médias, pão com manteiga e torradas”. Quatro Rodas, 1965.
“Onde ontem havia uma praça mais ou menos tranquila, hoje está uma feira de 100 barracas vendendo livros. Pode ser a praça Floriano, na Cinelândia, ou o largo do Machado, no Catete. Quando não é época de chuvas, há sempre a feira, em algum lugar. Enquanto isso, os camelôs fazem o seu comércio, há repressão da polícia, o rapa, mas eles sempre voltam e se misturam aos ambulantes de loterias e doces. A mulher das balas de ovo está sempre ao lado do Museu de Belas Artes, um pouco antes do homem que faz bonecos de miolo de pão, e depois vem o que vende flâmulas de times de futebol. Quando a semana é do Flamengo, o sujeito das flâmulas vai mexer com um jornaleiro da Avenida Rio Branco, no ponto de gravidade do centro, aberto em 1904. O jornaleiro é do Fluminense, com uma bandeira desfraldada no alto da banca”. Quatro Rodas, 1965.

Algumas coisas não mudaram nada. Outras mudaram totalmente. Bonecos de miolo de pão?!
“Rio é cidade de 3,8 milhões de habitantes. Em 67, prevê o IBGE, vai chegar a 4 milhões. Cidade grande, de 6900 ruas, 210 avenidas, 570 largos e praças, 563 caminhos, 96 becos, 43 ladeiras. Tem mais: praias, pontes, viadutos, escadarias, fortalezas, galerias, morros, pontas, serras, túneis. A soma de logradouros vai além de 9500. Em 1808 tinha 46 ruas, 19 largos e praças, 6 becos e 4 travessas”. Quatro Rodas, 1965.
Quantos becos tem hoje?
“Mulata é monumento de ondulação provocante, encontrada em todo o Rio de Janeiro, de onde é produto típico”. Dona Aizita, Mangueira. Quatro Rodas.
Acho que desde criança eu penso em descer a Anchieta de bicicleta. Não é a mesma coisa, mas aqui estou descendo a Serra das Araras, rumo à Baixada Fluminense (Nova Iguaçú).
Devo estar a uns 40 km/h, mas a sensação é de estar a uns 200.
A volta de Nova Iguaçu a Resende, pra pegar o carro, precisou ser de ônibus. Era uma subidinha, e achei que poderia ter vento.
"Favela tem poucos dias alegres, um pode ser o da menina que faz primeira comunhão, outro quando o engraxate Maneca deu lição de bola em Puskas. Mas alguns favelados começaram a ter dias de esperança e mais alguns já são ex-favelados, moram em casa de tijolo e cal, nas vilas".
1965.
Êita!
"Entre o monumento aos pracinhas e o aqueduto da Lapa há uma diferença de mais de 200 anos, mas ambos identificam o Rio, pouco menos que o Cristo e o Pão. O aqueduto, hoje passagem do bonde que sobe Santa Teresa, começou a ser construído em 1673 por cinquenta índios ganhando a comida. Ficou pronto cinquenta anos depois".
Quatro Rodas, janeiro de 1965.
"O Rio tem algo de antigo em certas ruas e becos do centro. No Cosme Velho, porém, o largo do boticário antigo não é. Tem poesia, mas cinquenta anos apenas. O Rio das fotos antigas acabou mesmo, mas deu um jeito de achar novos encantos".
Quatro Rodas, edição 54, janeiro de 1965.
"É mais fácil ser pobre aqui. A paisagem dá ao indivíduo um misterioso consolo".
Stefen Zweig. Brasil, País do Futuro.
"Rio mora no mar, logo tem praias. Em 197 quilômetros de litoral, 4,5 fazem a praia de Copacabana, a mais famosa do mundo. Há outras, Arpoador, Urca, Leblon, do Diabo, e duas recém-nascidas, Flamengo e Botafogo deitando areia onde antes havia amuradas e meio metro de pedras, a da Tijuca que tem 18 quilômetros de comprimento, a de Ramos, do lado oposto da cidade, Ipanema, com algumas palmeiras fazendo cena contra o pôr-do-Sol"
Quatro Rodas, janeiro de 1965.
Mudou nada nesses últimos 44 anos.
E, pra manter a tradição, isso aqui acaba de perder qualquer ordem cronológica nesse momento.

Terça-feira, Dezembro 23, 2008

Não cansa tanto quanto parece.
O legal é que até a bicicleta foi abandonada.
Todo mundo pensa que o pior é a subida.
Quando você pedala percebe que não é.
O pior é o vento.
Dutra.
Primeiro trecho: São José dos Campos-Aparecida. 90 km.